Erosão do trabalho docente em Química

a emergência não é só climática

Autores

  • Carlos Ventura Fonseca
  • Fabiane de Andrade Leite UFFS
  • Jaqueline Ritter FURG

Palavras-chave:

Trabalho docente, desenvolvimento profissional, contexto neoliberal

Resumo

Muito se discute, atualmente, sobre as emergências climáticas, o papel das escolas, seus currículos e as consequências sociais das diversas crises ambientais que assolam diferentes regiões do mundo (Müller et al., 2024). Porém, em relação ao magistério (o que inclui a docência em Química), esses elementos não só possuem importância, como ajudam a compor um quadro neoliberal de degradação aguda das condições e normas de trabalho, da vida dos professores e do valor da profissão perante os grupos sociais que frequentam os espaços de ensino formal (Sampaio; Stobäus, 2017). Currículos, materiais didáticos e cursos de formação de professores são atingidos pelos problemas decorrentes desse contexto. As políticas educacionais englobam os desempenhos mensurados em avaliações estudantis, a transferência de gestão pública para a iniciativa privada, as mudanças nos currículos e modelos de ensino, a competição entre instituições, as exigências do setor empresarial, a influência do capital financeiro e uma diminuição relativa da pobreza (Libâneo, 2019). Muitos elementos contribuem para o agravamento desse quadro de erosão da docência. As redes sociais, por exemplo, se fundamentam em uma arquitetura adaptável, em constante transformação e capaz de se autorregular, promovendo conexões colaborativas e não-hierárquicas. Nesses ambientes digitais, através da disseminação de imagens e conversas “em tempo real”, proliferam representações negativas sobre o magistério (Castro; Machado, 2020), havendo consequências deletérias para as instituições escolares: quantos jovens desejarão assumir esses postos profissionais no futuro? A desinformação também surge como um desafio urgente e decorrente desse cenário. No contexto da "pós-verdade", os indivíduos são incentivados a aderir a narrativas distorcidas, onde dados concretos e evidências são rejeitados em favor de vieses e convicções individuais; como resultado, a noção de realidade se fragmenta, perdendo sua relevância e solidez (Manara, 2024). Que discursos sobre a docência se tornam hegemônicos e passam a ser considerados válidos? Nesse contexto, a profissão docente caracteriza-se por: extensas jornadas laborais necessárias para suprir a insuficiência salarial; elevada taxa de rotatividade entre instituições de ensino; progressiva deterioração das condições de saúde; e sobrecarga de atividades extracurriculares (Barbosa, 2011). São fatores que, em conjunto, comprometem o desenvolvimento profissional e reforçam a necessidade de reconhecer o magistério como uma profissão que exige domínio do conteúdo a ser ensinado e das metodologias adequadas para diferentes públicos, considerando suas particularidades sociais, econômicas e cognitivas; requer conhecimento especializado, vinculado à ciência, à arte e à filosofia, distinto do saber cotidiano, tendo em vista uma prática pedagógica fundamentada e reflexiva (Cericato, 2016). A gravidade dos problemas tende a requerer interlocução entre escola, professores, universidades e seus grupos de pesquisa sobre o ensino, em favor de investigações que busquem fortalecer o trabalho docente (Barolli et al., 2019). Nossa proposta de Tema em Debate busca aprofundar esses problemas contemporâneos, buscando um diálogo que ajude a construir caminhos (com base em aportes teóricos que sejam sociológicos, epistemológicos e/ou psicológicos) de enfretamento individual e coletivo dessas dificuldades que se colocam e interferem na vida da sociedade.

Biografia do Autor

Carlos Ventura Fonseca

Carlos Ventura Fonseca é professor adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sendo vinculado ao Departamento de Ensino e Currículo (DEC) da Faculdade de Educação (FACED). Tornou-se professor da universidade em janeiro de 2017. Em 2025, atuou na Universidade de Brasília como colaborador, na modalidade de Estágio Pós-Doutoral, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências. Possui doutorado em Educação (2014), com tese versando sobre a formação de professores de Química e estruturas curriculares das licenciaturas. Em 2010, obteve o título de mestre em Química, com dissertação desenvolvida na linha de pesquisa Educação em Química. Em 2007, graduou-se em Licenciatura em Química. A graduação e a pós-graduação foram realizadas na UFRGS. Foi professor da rede estadual e da rede privada de ensino médio do Rio Grande do Sul (2007-2013). Atuou em cursos técnicos integrados ao ensino médio, quando foi professor efetivo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (2013-2017). Tem experiência em docência e pesquisa na área de Educação em Química, tendo como foco de trabalho os seguintes temas: representações sociais, ensino de Química e Ciências na Educação Básica, materiais didáticos, formação inicial docente, pesquisa (auto)biográfica, estágios de docência, formação continuada de professores e Pedagogia Universitária (docência na graduação e na Pós-Graduação). Lidera o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Desenvolvimento Profissional e Docência em Ciências (GEPEDDOC) e orienta estudantes de Mestrado e Doutorado. Foi Coordenador do Programa de Incentivo aos Estágios de Docência da universidade (2018-2023). Atualmente, desenvolve seu trabalho em cursos de graduação (Licenciatura em Química, Licenciatura em Pedagogia e Licenciatura em Educação do Campo - Ciências da Natureza), no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e na editoria da Revista Dimensões Docentes (periódico da Coordenadoria das Licenciaturas da UFRGS). Também atua na Sociedade Brasileira de Ensino de Química, como representante da Região Sul, no período 2024-2026.

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Publicado

10-02-2026

Como Citar

Ventura Fonseca, C., de Andrade Leite , F. ., & Ritter, J. . . (2026). Erosão do trabalho docente em Química: a emergência não é só climática. Anais Dos Encontros De Debates Sobre O Ensino De Química - ISSN 2318-8316, (44 EDEQ). Recuperado de https://edeq.com.br/submissao2/index.php/edeq/article/view/651

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